segunda-feira, 9 de maio de 2011

A Saga de Ÿrm - Final do Primeiro Conto




Um pulso de esperança



Abri lentamente os olhos. Aquilo não era um pesadelo, eu estava realmente preso em um laboratório que, acidentalmente, havia sido transportado para outro planeta através de um salto pela quinta dimensão. 
Nossa situação era bastante complicada. Não tínhamos como nos comunicar e estávamos construindo um transmissor rudimentar na esperança de sermos encontrados.

Levantei-me com dificuldade devido à inclinação do chão. O Dr. Thurnik e mais dois outros rapazes estavam trabalhando no transmissor.

- Como estão os trabalhos? – Perguntei.

- Temos um problema – respondeu o doutor – os poucos comutadores que temos não conseguirão drenar a potência necessária.

- Podemos paralelizar alguns comutadores. – repliquei.

- Mesmo assim, – afirmou Thurnik – possuímos apenas alguns pares de comutadores, que somados não conseguirão atingir o nível de potência que necessitamos.

- O que podemos fazer professor?

- Com a potência que temos, não seremos percebidos em Ÿrm , as ondas eletromagnéticas chegarão lá muito fracas para serem percebidas. Assim eu sugiro que façamos dois transmissores, dividindo os comutadores que temos. 

- Sim, qual é a idea? Voltei a perguntar.

- Um deles manteremos em operação para o caso de alguma de nossas espaçonaves, eventualmente passar perto o bastante para sentir o sinal de socorro. 

- E o outro?

- E o outro nós refrigeraremos o máximo possível e, no momento oportuno, descarregamos um único pulso com grande quantidade de   energia. Isso irá queimar imediatamente os comutadores, porém irá gerar um forte pulso eletromagnético.

- Mas, - indaguei perplexo – e se este pulso passar despercebido em Ÿrm?

- Então, meu amigo, só nos restará rezar para que alguma nave passe aqui por perto.

- O que eu posso fazer para ajudar? – perguntei com a voz sumindo na garganta.

- Por favor, ajude WalthYr com os circuitos eletrônicos. – falou o doutor escondendo uma lágrima.

O tempo passou lentamente. Os dois transmissores ficaram prontos. Todos nós sabíamos que as chances de sermos encontrados com vida era praticamente zero. Resolvemos então deixar um relato de toda a experiência. Assim, se fossemos encontrados no futuro, pelo menos a nossa descoberta poderia fazer algum benefício para a humanidade.

Depois de concluídos os trabalhos cabia-nos apenas esperar. Como não havia o que comer tentávamos tapear a fome com água. Decidimos não gastar as nossas energias, assim passávamos muito tempo deitados.

***

Por fim, penosamente, os 33 khons se passaram, e um pequeno telescópio do laboratório nos permitiu ter uma visão esmaecida do nosso querido planeta Ÿrm. Naquele pontinho do céu estavam todas as pessoas que amávamos tanto.

- Senhor WalthYr, por favor, ligue o primeiro transmissor. – pediu Thurnik algo emocionado.

WalthYr apenas acenou com a cabeça, inclinou-se sobre um painel improvisado e ligou alguns botões. Ouviu-se um pequeno zunido.

- Está operando doutor. – respondeu por fim o rapaz.

- Muito bem, quando podemos enviar o pulso de alta potência? – perguntou o professor.

- Quando o senhor quiser doutor.

- Então faça isso agora, não há motivos para esperar mais.

- Sim senhor.

Ouvimos dessa vez um forte zunido, seguido de uma pequena explosão. Um cheiro de borracha queimada encheu o ambiente. Entreolhamo-nos, a sorte estava lançada só nos restava esperar e rezar. 
Se tudo desse certo o pulso eletromagnético chegaria em Ÿrm  em aproximadamente 1 khon (Pouco menos de duas horas e trinta minutos terrestres). Até organizarem uma nave para resgate e essa chegar levaria mais pelo menos 2 Kohns. Em 3 Khons saberíamos da nossa sorte.

Voltamos a deitar para poupar nossas energias, estávamos todos bastante enfraquecidos pela falta de alimentos.
Vagarosamente os três Khons passaram, depois mais um e depois outro. Já estava bem claro qual seria o nosso destino.

Peguei uma caneta e uma folha de papel e comecei a escrever uma carta para os meus.

Querida e amada CYhara.
Meu rapazinho Yhargo e minha mocinha Tharÿa.

Eu sei que, talvez, vocês nunca venham a ler este papel. Mas eu preciso escrevê-lo mesmo assim.
Primeiro eu queria pedir desculpas por tudo que, eventualmente, possa ter feito a vocês. 
Segundo eu gostaria que soubessem que não importa o que aconteça comigo, o meu amor por vocês é inabalável é indestrutível. 
De onde eu estiver eu estarei olhando por vocês até o limite das minhas forças.
Amada CYhara, me perdoe por não poder dividir com você a responsabilidade e as alegrias de criar os nossos filhos. Sei que cuidará muito bem deles.

Meu filho Yhargo, seja um homenzinho dedicado e cuide da sua irmã e da mamãe para mim.

Minha menina Tharÿa, seja como sempre foi a luz que ilumina o caminho.

Daquele que ama muito vocês
Phytarco Hortheu

Deixei a caneta cair, não iria precisar mais dela mesmo. Sentia muita fome. Pensei um pouco nesse paradoxo. Estávamos em um avançadíssimo centro de pesquisas, cercado de máquinas valiosíssimas, androides por toda parte e nós ali morrendo aos poucos de fome!
Tanto o cérebro quântico do prédio, como as dezenas de androides se desdobravam para deixar-nos o mais confortável possível. A todo momento nos ofereciam água, mas aos poucos íamos ficando apáticos. Olhando para um ponto no infinito. 
A medida que o tempo passava as esperanças diminuíam e muitos de nós já aguardava placidamente a visita da morte.
Meus pensamentos estavam povoados com imagens de CYhara, Yhargo  e Tharÿa. A minha maior dor era morrer longe deles. Fechei os olhos e dormi.

***

- Senhor Phytarco, senhor Phytarco.

Abri muito lentamente os olhos me sentia muito fraco, tive que me esforçar para poder focar o meu interlocutor. Era um androide. Fechei novamente os olhos na esperança que ele fosse embora.

- Senhor Phytarco, senhor Phytarco. – insistiu o autômato.

- Sim. – respondi com dificuldade.

- Uma espaçonave de Ÿrm  se aproxima.

Arregalei os olhos, imprimi em meus músculos uma força que eu nem sabia que tinha. Segurei o braço do robô.

- O que disse?

- Uma espaçonave de Ÿrm  esta a caminho. Acabaram de entrar em contato com o cérebro quântico principal.

Levantei-me e olhei o grande telão. Quase não pude acreditar, uma nave de resgate estava estacionando ao lado do nosso acidentado laboratório.

- Professor! – gritei com dificuldade.

O doutor Thurnik, que também já tinha sido acordado por outro androide se levantou. Lágrimas abundantes corriam dos seus olhos. Não me contive e comecei a chorar de felicidade.

***

Algum tempo depois, estávamos a caminho de casa na enfermaria da grande nave de resgate. Recebemos alimento direto nas veias. Em seguida fomos sedados para dormir livres de estresse. Em pouco tempo eu estava em forma.

Acordei muito bem disposto. A enfermaria estava repleta de androides médicos. Todos da equipe ainda dormiam. Um dos médicos me informou que todos passavam bem. O estado de SwaFlo inspirava maiores cuidados. 

Recebera uma perna mecânica e permaneceria em coma induzido por mais alguns khons.

Deixei a enfermaria e peguei um transleve para ir até a ponte de comando da aeronave. Fui recebido com um largo sorriso pelo comandante da nave senhor Frysths.

- Como está o senhor? Sente-se melhor? – perguntou solícito.

- Agora me sinto inteiro de novo. – respondi retribuindo o sorriso.

- Meu amigo, – perguntou o comandante curioso – como vocês vieram parar aqui? E ainda trouxeram um prédio inteiro!

- Acredita em salto pela quinta dimensão?

- Não sei – respondeu ainda com o sorriso no rosto – mas acho que, pelo jeito, terei que começar a acreditar.

- Pode apostar que sim.

Expliquei ao comandante como tudo aconteceu. Depois entramos em outros assuntos sem muita importância.

- Me diga – perguntei curioso depois de algum tempo – quem foi que conseguiu decifrar a nossa mensagem?

- Que mensagem?

- O pulso eletromagnético que enviamos para o espaço, na direção de Ÿrm.

- Não estou sabendo de nada, de nenhum pulso que tenha sido recebido por qualquer receptor em Ÿrm.

- Mas – agora eu estava realmente atônito – como vocês ficaram sabendo da nossa posição?

- Bem, – respondeu o homem olhando para mim significativamente –  senhor Phytarco, por acaso o senhor conhece uma menininha chamada Tharÿa?

- Sim – falei com as lágrimas aflorando nos olhos.

- Pois bem, ela foi a uma grande rede de TV e falou para todos que seu pai estava preso no planeta UZW23 e que nós deveríamos ir busca-lo. O pessoal do programa achou tratar-se de uma brincadeira. E ninguém deu atenção. Então ela procurou um importante industrial. O homem ficou tocado com a história da menina. E devido à insistência de Tharÿa achou que valia a pena tentar fazer alguma coisa. Então ele financiou a nossa vinda até aqui.

- A minha Tharÿa fez tudo isso?

- Fez sim. Quando avisamos que já tínhamos encotrado os senhores  ela se tornou uma espécie de heroína.

Lembrei do sonho que tive no dia do acinte. A ultima frase de minha filha surgiu incandescente em minha mente “Não se preocupe papai, eu vou buscar você”.  Chorei como criança, enquanto repetia baixinho “muito obrigado minha filha, muito obrigado”.

***

A grande nave de resgate pousou suavemente em seu hangar. Uma multidão de pessoas nos esperava.
A medida que o transleve, que nos transportava, se aproximava da multidão, reconheci alguns rostos familiares. O coração parecia querer sair pela boca.

Tão logo o transleve tocou o chão eu salte e abracei num só abraço a minha salvadora Tharÿa, a esposa amada CYhara e o meu garoto Yhargo. Chorávamos de felicidade. Beijei e agradeci muito à pequena Tharÿa.

O céu estava azul, bem azul um dos sois estava nascendo, como querendo dizer que estávamos diante de um recomeço. O outro sol estava no meio do céu enchendo de luz o nosso planeta. Fechei os olhos e agradeci por ter recebido uma segunda chance.



Fim do primeiro conto.



Leia o primeiro capítulo de Hathor aqui.


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