segunda-feira, 2 de maio de 2011

A Saga de Ÿrm - Capítulo 4



Um planeta distante

- Senhores – disse Thurnik reticente – não estamos em Ÿrm estamos no planeta UZW23! Fomos tragados para dentro de um buraco no hiperespaço.

- Mas doutor – relutei – o buraco que criamos tinha apenas três mícrons de diâmetro!

- Eu sei – continuou o doutor – talvez, toda aquela energia que estávamos aplicando foi armazenada num tipo de capacitor penta-dimensional, que realimentou o sistema, abrindo um gigantesco buraco.

Olhei instintivamente para a grande tela, não havia outra explicação. Se não estávamos em Ÿrm, só poderíamos estar em UZW23. Lembrei-me de CYhara  e das crianças, senti um forte aperto no coração.  A frase da pequena Tharÿa surgiu como fogo do fundo da consciência.

“Papai, tudo vai dar certo. Não perca a esperança, mesmo se as coisas estiverem difíceis.”

Levei as mãos no rosto. Lentamente o pânico estava tomando conta de mim. Olhei em derredor e li no rosto dos outros membros da equipe o mesmo drama interno. O medo de morrer longe de seus amados estava estampado na face de cada um
.
Provavelmente, todos estavam fazendo silenciosamente a mesma análise da situação:

Em pouco tempo nosso planeta inteiro saberia da tragédia. Seriamos dados como mortos, sequer haveria buscas por sobreviventes. E se não encontrássemos alguma maneira de avisar as autoridades de Ÿrm, jamais seriamos resgatados.

Um silêncio profundo se estabeleceu. Pesados momentos passaram vagarosamente. Dava a impressão que nunca mais sairíamos daquele estado letárgico.

- Senhores – disse Thurnik, quebrando o inquietante silêncio – precisamos nos organizar. Como está SwaFlo?

- Está fora de perigo, senhor. – respondeu o androide médico  - Estou monitorando o seu estado biológico e ele está reagindo bem. Acredito que em dois dias poderei implantar uma perna mecânica, até que seja possível fazer a reintegração dos tecidos biológicos.

- Ótimo – replicou aliviado.

- Doutor, o que acha que podemos fazer? – perguntei.

- Precisamos conseguir avisar Ÿrm, é a nossa única chance. Até porque a nossa descoberta não pode morrer conosco aqui. Está é certamente a maior descoberta científica dos últimos 1500 anos!

Nosso povo já possuía tecnologia para viagens interplanetárias dentro do nosso sistema solar. Nossas espaçonaves conseguiam atingir velocidades próximas da Luz. Assim, se soubessem onde estávamos, uma nave de resgate chegaria até nós em pouco mais de 1 Khon (Umas três horas terrestres).
Lembrei-me novamente da minha família, provavelmente eles ainda nem sabiam do que acontecera com o laboratório. Certamente as notícias em Ÿrm deviam estar extremamente desencontradas. Queria poder avisar CYhara, dizer que eu estava bem, que a experiência fora um sucesso.

- O cérebro quântico do laboratório está funcionando? – perguntou Thurnik.

- Sim senhor – foi a resposta que encheu o ambiente – Estou funcionando perfeitamente. Já tomei todas as precauções para vedar a entrada de metano no prédio, bem como já ativei o sistema de aquecimento para a temperatura interna não cair. Todos os geradores de energia estão funcionando bem. Os reatores de fusão nuclear podem garantir energia por mais de dois mil anos.

- Ótimo, consegue localizar a nossa posição neste planeta?

- Sim senhor, estamos no equador de UZW23, mais precisamente no quadrante K115.

- Temos visibilidade de Ÿrm no céu? – voltou a inquirir o doutor.

- Não senhor, – foi a resposta fria –  pelos meus cálculos, Ÿrm se pôs no horizonte há 0,75 Khon.

- Quando teremos visibilidade novamente?

- Daqui a extatos 33,2 khons (Em tempo terrestre são 3 dias, 7 horas e 30 minutos) -  replicou o autômato de forma imparcial.

- Trinta e três Khons! Exclamei desesperado.

Durante esse tempo ficaríamos sem a menor possibilidade de nos comunicar com nosso planeta. Além do mais, não havia suprimentos no laboratório, não teríamos o que comer durante todo esse tempo. Para piorar ainda mais, tínhamos um ferido em estado preocupante.

- Como está a unidade de tratamento de água? -  perguntei.

- Está em perfeito funcionamento. – responde cérebro quântico.

- Que bom, - respirei um pouco mais aliviado – pelo menos teremos água fresca.

- Temos algum transmissor potente no laboratório? – quem perguntava agora era WalthYr.

- Não senhor. – foi a resposta fria.

- Bem, senhores – falou solicitamente o doutor – temos 33 khons para construir um transmissor.

- O que o senhor sugere? Perguntei.

- Podemos improvisar um transmissor baseado em ondas eletromagnéticas com amplitude modulada. É um modelo bem simples. Energia temos bastante. Colocamos os androides construtores para instalar a antena em um local adequado. Depois é só ligar o transmissor e esperar que Ÿrm receba e consiga interpretar o nosso sinal. Talvez não consigamos enviar um sinal de voz, mas certamente poderemos enviar um sinal binário codificado com pedido de socorro.

***

Os Khons seguintes foram de muito trabalho. Tivemos que improvisar várias ferramentas. A primeira parte do plano consistia em criar um robusto transmissor, capaz de operar em várias faixas de frequência. Não podíamos arriscar uma faixa estreita de frequência que poderia não ser percebido pelos rádio receptores instalados em Ÿrm. 
Tinhamos decidido enviar a mensagem em frequências que iriam desde a faixas operando a alguns quilo-hertz até faixas operando a centenas de giga-hertz.  Contudo, a tarefa mais complicada estava a cargo dos androides construtores. Cabia a eles instalar a estrutura metálica que seria usada como antena. Para isso os autômatos necessitavam enfrentar a temperatura externa, que era muito baixa para esse modelo de androide. Perdemos dezenas de androides durante o processo.

Cinco Khons já haviam passado. Todos no laboratório estavam exaustos. Boa parte do trabalho já estava feito. A antena estava posicionada, o transmissor parcialmente construído, os cabos de ligação da antena estavam instalados e o gerador de alta potência também já estava preparado.

- Senhores – falou o doutor – é melhor irmos dormir um pouco, pelos meus cálculos temos algo em torno de 28 khons até Ÿrm surgir no horizonte.

Realmente, estávamos muito cansados. Não havia nada para comer no laboratório e a fome começava a incomodar.
O piso inclinado dificultava tudo, uma simples caminhada consumia bastante energia. Até mesmo encontrar um lugar para dormir não foi tarefa fácil.
Achei um cantinho, me deitei. Lembrei que era noite em Ÿrm, CYhara devia estar em nosso apartamento, talvez chorando a minha morte. 
Estranhos sentimentos invadiram o meu ser. Em minha mente surgiram meus filhos amados Yhargo e Tharÿa. Será que veria eles novamente? Chacoalhei a cabeça tentando espantar os pensamentos ruins. Enxuguei um par de lágrimas que acabara de escapar de meus olhos. Aos poucos, fui sendo vencido pelo cansaço e dormi.

***

Percebi que o meu ser continuava consciente, me sentei e, para meu espanto, o meu corpo físico continuava deitado! Essa não era a primeira vez que isso acontecia comigo. Assim agi com naturalidade. Certifiquei-me que o corpo físico respirava normalmente. Fiquei feliz, pois não estava morto.
Olhei ao redor e constatei que, no plano extrafísico, havia muitas formas de vida. Criaturas com as mais variadas aparências. Nenhuma delas parecia perceber a minha presença, provavelmente eu estava invisível para elas.
Lembrei da minha querida família. E pelo poder da vontade meu espirito disparou na direção dos meus amados. Milhões de quilômetros foram vencidos num piscar de olhos. De repente eu estava no nosso apartamento. Fui até o quarto e lá estava CYhara chorando desconsolada. A mãe e o pai dela também estavam lá. Senti um aperto enorme no coração. Tentei falar com eles, mas não me viam nem ouviam a minha voz.
Estranhamente eu sentia o desespero deles, e ouvia os seus pensamentos como se falassem em voz alta.
Fui para o quarto de Yhargo. Meu filho dormia profundamente. Aproximei-me e beijei carinhosamente seu rosto.

- Eu te amo, meu filho – sussurrei ao seu ouvido, com as lágrimas brotando descontroladas.

- Eu também te amo, papai – ouvi sem saber de onde vinha a voz.

- Você pode me ouvir? – perguntei esperançoso, porém não obtive mais respostas.

Beijei-lhe novamente o rosto e sai em direção ao quarto de Tharÿa.
Levei um susto ao entrar no quarto da minha filha. Seu corpinho dormia calmamente, mas seu espirito estava sentado no chão ao lado da cama.

- Papai – gritou Tharÿa ao mesmo tempo em que correu em minha direção.

Abracei-a fortemente e choramos. Ficamos abraçados por um tempo.

- Papai você está bem? – perguntou Tharÿa com doçura.

- Sim minha filha eu estou – respondi – aconteceu um problema coma experiência. Mas, estamos todos bem.

- O que aconteceu?

- A experiência saiu do controle e fomos lançados para um outro planeta. – expliquei sem esperar que ela entendesse.

- Qual planeta? – perguntou curiosa.

- É um planeta com nome esquisito minha querida.

- Qual é o nome? – insistiu.

- UZW23 -  falei por fim.

- Não se preocupe papai, eu vou buscar você. – falou com inocência.

Beijei-a e com ternura. Senti que o corpo físico me puxava. Soltei Tharÿa com carinho imenso.

- Adeus meu amor. – falei com a voz embargada

- Até logo papai – falou com alegria.

No instante seguinte, acordei de sobressalto no meu laboratório prisão. Lembrei-me do sonho que acabara de ter. Chorei desesperadamente. Depois de algum tempo caí no sono novamente e dormi por vários khons.



Leia o primeiro capítulo de Hathor aqui.

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