domingo, 17 de abril de 2011

A Saga de Ÿrm - Capitulo 2

(Leia o primeiro capítulo)


Preparatórios para o grande dia




A parte política do negócio foi muito bem conduzida pelo Dr. Thurnik. Ele conversou com várias pessoas e, usando uma retórica impecável, uma oratória de dar inveja, o bom doutor convenceu a todos que devíamos fazer o experimento em caráter de urgência.


Ao final do dia estava tudo acertado: laboratórios, recursos financeiros, pessoas, enfim, tudo que fosse necessário estava à nossa disposição.


Aqui em Ÿrm o dia é dividido em 10 Khons, cada Khon equivale há aproximadamente duas horas e vinte e quatro minutos na Terra.


Lá pelos 7,5 Kons (Como se fosse seis horas da tarde na Terra) terminei o meu trabalho daquele dia. 
Peguei um transleve. Não sei se já lhe falei sobre os transleves, são pequenos veículos, com capacidade para umas dez pessoas. Normalmente um eles tem forma circular com um único acento, contornando todo o perímetro. Assim os passageiros sentam-se como se estivessem na mesa de um bar. A operação do aparelho é feita por um cérebro quântico. Todos os nossos prédios possuem muitos desses aparelhos para levar as pessoas de um lado para outro. Enfim, pequei um transleve que me levou até o hangar. 


O dia estava muito iluminado, enquanto um dos sois estava a pino o outro estava quase se pondo no horizonte. Esta era uma época do ano em que o planeta recebia muita luz, o que era ótimo para as plantas lá embaixo no solo.



Deixa eu falar um pouco da nossa cidade para você. Bem, a cidade flutua a uma altura de três mil metros do chão. Tudo o que precisamos para viver como água e alimentos são estocados ou produzidos na própria cidade. Há muitos milênios que deixamos a superfície do planeta. Assim, permitimos que as plantas e animais selvagens sigam seu próprio caminho. Somente descemos até a crosta para estudos ou quando a nossa interferência se faz necessária para o equilíbrio da evolução dos espécimes que vivem aqui.


Consultei o relógio com certa ansiedade, eram 7,7 Khons. Queria contar logo a novidade para minha querida CYhara. Nós estávamos casados há dez anos e o Universo já havia nos mandado duas maravilhosas crianças. Yhargo, o mais velho contava nove anos e a doce e meiga Tharÿa que nos alegrava a vida com a candura de seus cinco anos.


De longe avistei o transleve que trazia minha amada. Tão logo o aparelho pousou, eu a abracei e a beijei efusivamente. Ela logo notou que algo de diferente havia acontecido.


- Meu amor – entoou com doçura – aconteceu alguma coisa hoje? Por que você está tão eufórico?


- Se lembra do meu sonho?


- Sim, me lembro que você falou algo sobre um sonho maluco.


- Muito maluco meu amor, muito maluco. A Academia está colocando à nossa disposição vários recursos para efetuarmos uma experiência de enormes proporções! E se o meu sonho estiver certo... O futuro da humanidade pode ser escrito de forma diferente.


- Quer dizer que você está próximo de uma nova descoberta?


- Sim, meu amor, se a nossa experiência der certo estaremos escrevendo o primeiro capítulo de uma história que pode nos levar para as estrelas.


CYhara me olhou um tanto confusa e me abraçou e me parabenizou pela minha dedicação à física teórica.
Entramos no nosso transleve particular. Contei tudo sobre o meu dia, depois ouvi como fora o dia da minha esposa.


- Para onde vamos? Perguntou o transleve friamente.


Talvez não tenha lhe contado ainda, ou será que já falei? Bem, mas a maioria de nossos objetos e aparelhos são equipados com unidades de processamento de informação capazes de identificar e compreender a fala humana. Assim, respondi prontamente ao transleve.


- Estamos indo para nossa casa.


- Estamos com pressa? – Voltou a inquerir o veículo voador.


- Não – concluí enquanto voltava a atenção para CYhara.


- O que acha de tudo isso? – perguntei, interessado em saber a opinião dela.


- Eu acho que você é um gênio! É por essas e outras que amo você.


Uiah! É a segunda vez que sou chamado de gênio em um único dia! Bem, na primeira vez o Dr. Thurnik não usou exatamente a palavra “gênio”, mas é quase como se fosse.


- Obrigado meu amor, não seria nada sem você. – respondi com um largo sorriso no rosto.


Bem, meus amigos, vou resumir um pouco a narrativa: Chegamos em casa, brincamos com as crianças, jantamos. Passei a prestar mais de atenção ao corpo escultural de CYhara. O que despertou alguma coisa em mim. 
Convidei-a para assistirmos um filme juntos... 
Assistimos o filme... 
Subimos as escadas para o nosso quarto... 
Ela deitou-se confortavelmente em nossa cama... 
Eu deitei ao seu lado...


- Boa noite meu amor. - falou CYhara quase murmurando, virou-se para o lado e dormiu.


Puxa, eu nunca vi ninguém dormir tão rápido!


***

Quatro meses se passaram. As atividades na Academia de Ciência foram ficando cada vez mais frenéticas para cumprirmos o cronograma. Por fim, tudo ficou pronto para o grande dia. Era chegado o momento da primeira de uma série de experiências. Nestes primeiros dias, apenas os cientistas estariam presentes. E, dependendo do resultado das experiências, o projeto seria apresentado para o principal administrador da cidade.


***

Abri os olhos preguiçosamente, lembrei-me da longa noite de insônia. Como de costume, CYhara já havia descido para preparar o café. Eu sempre tentei acordar antes dela, mas confesso que não consigo. Talvez seja um pouco de preguiça também.


De repente, me lembrei que hoje era o dia da primeira grande experiência. Iríamos, finalmente, sintetizar a tão sonhada porção de matéria exótica.


Levantei num salto e corri para a cozinha.


- Bom dia, meu amor – falei quase cantando.


- Bom dia! Hoje é o seu grande dia. Estou orgulhosa de você.


- Muito obrigado meu amor. Se tudo der certo...


- Irá dar certo eu tenho certeza. – afirmou CYhara com ternura.


- É você tem razão, irá dar certo. Aí, serei promovido na Academia e teremos uma vida muito mais tranquila.


- Eu adoro a nossa vida! E é sempre bom melhorar ainda mais!


- Concordo, concordo. – respondi enquanto me sentava para tomar o meu café da manhã.


Yhargo e Tharÿa estavam à mesa e, a minha pequena já estava com o rosto todo lambuzado de chocolate. Cumprimentei o dois com um beijo carinhoso. Tive de tomar cuidado para não manchar a minha camisa com chocolate. 


CYhara juntou-se a nós. Éramos uma família feliz.


- Como sabe querida, - falei, enquanto colocava uma porção de café com leite na minha xicara – hoje não irei para a Academia de Ciência. A experiência acontecerá no laboratório de pesquisas avançadas.


- Eu sei meu amor, você me falou ontem.


Enfiei um bocado de pão na boca, com isso fiquei um tempo sem poder falar.


- Estou muito ansioso. – disse com certa dificuldade depois de engolir.


- Fique calmo que tudo dará certo, você vai ver.


O meu café da manhã foi muito rápido, queria sair logo. Tinha vontade de empurrar os ponteiros do relógio.


- Querida, eu vou indo então – falei apressado.


- Eu te amo. – sussurrou CYhara com um par de lágrimas tentando escapar pelo canto de seus lindos olhos castanho claro.


- Até mais tarde, depois conto como foi a experiência.


Quando já estava chegando à porta, Tharÿa me chamou.


- Papai – disse com doçura infantil – tudo vai dar certo. Não perca a esperança, mesmo se as coisas estiverem difíceis.


Não me contive, voltei e beijei novamente meus dois filhos. Agora eu estava emocionado, aquele era realmente um dia especial.


Dali a pouco tempo eu estava entrando no laboratório de pesquisas avançadas. Talvez, aquele fosse o dia mais importante da minha vida acadêmica. Tão logo cheguei, fui direto para a sala de controle onde ficavam todos os terminais de análise.


Talvez você não esteja visualizando. Estávamos em um gigantesco laboratório, que media uns trezentos metros de altura por uns mil metros de largura e pelo menos dois quilômetros de comprimento. O grande espaço estava totalmente tomado de máquinas enormes. Havia reatores de vários tipos, geradores de energia, transformadores, acumuladores, aceleradores de partículas e uma pequena multidão de robôs e androides.


Eu e o Dr. Thurnik estávamos em uma sala que ficava bem no alto, dando uma visão completa de todo o ambiente.


Nossa intenção era sintetizar uma esfera de três mícrons de diâmetro de matéria exótica. E em seguida bombardeá-la com um fino feixe de elétrons, com no máximo um decimo de mícron. Se tudo corresse bem, a pequena esfera de matéria exótica iria produzir uma passagem para um outro ponto qualquer do universo, como se fosse um túnel que passa pelo interior de uma montanha. Desse modo os elétrons atravessariam a esfera como quem passa pelo túnel e voltariam para o espaço de três dimensões em outro lugar.


O cronometro fazia, preguiçosamente, a contagem regressiva. Faltava menos de um khon para o experimento.


Meu coração batia acelerado, eu estava realmente ansioso, como há muito tempo não ficava. Os dedos tremiam sobre o teclado do computador quântico.


- Meu jovem – disse calmamente o Dr. Thurnik – não fique tão exaltado ou irá perder o melhor da experiência.


- Estou tentando doutor, estou tentando me acalmar.


- Quando eu era jovem como você, me comportava exatamente assim. Mas acredite, se respirar fundo e se convencer de que hoje é um dia como outro qualquer, sua capacidade de concentração irá aumentar. Logo, tudo estará sob melhor controle, e você poderá desfrutar desse momento de maneira muito mais produtiva.
Concordei, apenas com leve movimento da cabeça.


- Obrigado doutor, vou procurar me acalmar.


Voltei a olhar para o cronometro. A impressão que eu tinha é que o aparelho estava com defeito. Por que o tempo demorava tanto a passar?
Além do Dr. Thurnik estavam também na sala mais dez técnicos de alta graduação.


Vagarosamente o tempo passou e num dado momento, o cérebro quântico do laboratório iniciou a contagem em voz alta: dez... nove... oito...
Três... dois... um... Iniciar processo.




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